O lado B do BE>AM · por Hugo Jarocki

A luz sempre foi o meu idioma.

Esta é a história de como a transformei num edifício: o passado, as referências, os andares e todas as ideias que couberam na apresentação… e as que não couberam.

A torre BE>AM à noite, com o feixe de luz a subir ao céu de Lisboa.
a história completatudo o que discutimos

Quem sou eu

Hugo Jarocki.

37 anos, natural de Recife. Publicitário de formação, fui fotógrafo de eventos e DJ em Dublin durante anos. Hoje sou fotógrafo apaixonado por moda e por light painting, vivo em Lisboa e faço a pós-graduação em Fotografia e New Media no IADE. O BE>AM é o meu projeto de vida: a soma de tudo o que vivi até aqui, virada em luz.

01 · De onde venho

Antes da luz, houve o som.

Antes de qualquer prédio, antes de qualquer slide, havia a publicidade. Me formei em publicidade ainda em Recife, antes de ir morar em Dublin, e fotografei todo tipo de eventos.

Já em Dublin, fui DJ durante anos, vivendo atento ao som, ao ritmo, à forma como uma sala inteira sente a mesma coisa ao mesmo tempo. Foi isso que me ensinou a primeira lição do BE>AM sem eu perceber: experiência é emoção coletiva. Luz e som são a mesma coisa, vibração que nos atravessa.

Juntei meu talento e meu instinto artístico e comecei a fotografar usando light painting também nas boates.

02 · A faísca

Um bastão de luz no escuro.

A ideia do Photo Booth automático não nasceu numa aula. Fotografei durante muito tempo em boates e usava o light painting para capturar o movimento das luzes: o flash congelava os clientes e eu movimentava a câmera em giros (todo mundo se perguntava o que eu estava fazendo), e voilà, mostrava a foto na câmera e as pessoas não acreditavam.

Light painting capturado numa boate em Dublin Light painting capturado numa boate em Dublin

Light painting nas boates de Dublin, onde a técnica começou.

Também fui, e sou, um fotógrafo fascinado por fotografia de moda, e a minha técnica de light painting nasceu no chão da minha sala, no escuro. Eu fazia light painting sem estrutura nenhuma: uma modelo, um bastão de luz desenhado à mão (alguém a "pintar" atrás dela durante a exposição longa) e muita tentativa e erro. Era assumidamente caseiro… dava para ver que era amador, e eu amo isso.

Veja a técnica: light painting na sala de casa.

Mas quando as fotos finais apareciam, toda a gente ficava de queixo caído. Foi aí que percebi: a magia da fotografia não é cara nem complicada. Está escondida, e ninguém a mostra às pessoas. O photobooth do museu é a versão engenheirada daquela noite.

03 · As primeiras referências

O que me fez acreditar.

Ser formado em publicidade e amar de verdade as grandes campanhas sempre fez parte de mim. Uma, em especial, sempre foi a minha preferida: no lançamento do filme do Star Wars em 2015, quando eu morava em Dublin, o Spire, uma agulha de 120 metros no centro da cidade, foi transformado num sabre de luz. SIM! O feixe ia até o céu, um dia vermelho, no outro azul. De qualquer ponto da cidade dava para ver aquela luz. Aquela campanha é a base do que criei aqui, muitos anos depois.

De repente, por um Instagram da vida, recebi um post do show do David Guetta em Paris. Abri quase sem expectativas e LÁ ESTAVA O FEIXE DE LUZ, de forma atual, exatamente como eu tinha definido que o BE>AM devia ser. Junta a isso o fato de a publicação ser de 2026 e fiquei ainda mais certo de que tudo isso é possível.

Se eles conseguiram, o Beam do BE>AM não é fantasia. É engenharia.

BT Tower, Londres, como sabre de luz, 2011 The Spire, Dublin, como sabre de luz, 2015 David Guetta, Monolith Tour, Paris, 2026

As três chaves: BT Tower (Londres), The Spire (Dublin) e David Guetta (Paris).

04 · A ideia que veio

O prédio é uma lente.

Um dia encaixou tudo de uma vez: e se o próprio edifício fosse uma câmara? Uma torre organizada pela escala de aberturas (F-Stop), do f/1 (térreo, escuridão) ao f/32 (rooftop, tudo em foco). Um feixe branco-azul, o Beam, a atravessar todos os andares e a perfurar o céu.

E a regra que me arrepiou: subir o prédio é fechar o diafragma, é o mundo a entrar em foco. O vidro vai de opaco na base a cristalino no topo. A arquitetura é a lição.

05 · Entrei na pós com o projeto já desenhado

Convicção desde o primeiro dia.

No primeiro dia de aula da pós em Fotografia e New Media (IADE), fui o único aluno que chegou com slides impressos e com uma ideia megalomaníaca pronta. Na hora de me apresentar, ri bastante, de nervoso, por ser a primeira aula e já levar um belo esboço do que queria desenvolver na prática. As páginas impressas já traziam o Beam no centro e os andares em F-Stop.

Era só um esboço, mas já era convicção. O curso não me deu a ideia. Deu-me as ferramentas para a construir, desenvolver os andares e reunir tudo o que vivi até hoje numa experiência sensorial única.

06 · O que a IADE me deu

Não uma cadeira. As doze.

O BE>AM é o meu projeto-síntese. Cada cadeira vive em algum lugar dele.

BrandingTodo o sistema de marca: o logo prismático, o Vantablack, os "Beamers".
Estratégias de ComunicaçãoA narrativa problema/solução e dois discursos: banca e investidores.
Fotografia de Arquitetura e AmbientesO prédio como conceito e os renders.
IA e Criatividade VisualTodos os vídeos e imagens do projeto.
Edição com Smart DevicesO app e o telemóvel como ferramenta do visitante.
Digital WorkflowO pipeline captura, edição e print, e o modelo "motor + conteúdo".
Pós-produção de Vídeo e de FotografiaO filme da subida e as imagens finais.
Reportagem para EventosDocumentar as sessões e o rooftop.
Gestão de Redes SociaisA comunidade Beamer e o conteúdo partilhável.
Fotografia e LifestyleO museu como destino de experiência.
Photo PublishingOs catálogos das temporadas e o Passaporte.

07 · Os andares, em detalhe

Encarnar, não ilustrar.

O visitante não vê a abertura explicada, ele vira a abertura. Cada andar é um motor permanente (a instalação) mais um conteúdo rotativo (as fotos, trocadas a cada seis meses, de artistas portugueses). Duas ferramentas com gramática fixa: 🔦 luz branca para pintar e revelar pela luz; 🟣 UV para revelar camadas secretas.

f/1 · LuzSem luz não há imagem (mais a recepção). Câmara obscura real e mural fosforescente coletivo.
f/1.4 · FocoSó um plano fica nítido. Um plano de laser que atravessas.
f/2 · ISOVer no escuro custa grão. Câmara de adaptação (o olho é o ISO) e revelações UV.
f/2.8 · AberturaQuanto do mundo fica nítido. Iluminas o fundo borrado e ele entra em foco.
f/4 · ComposiçãoPara onde o olho vai. Grades de laser e a "Máquina de Composição".
f/5.6 · VelocidadeCongelar ou pintar o tempo. A "Sala da Longa Exposição" coletiva.
f/8 · Photo BoothAplicas tudo, sabendo porquê. O clímax, onde crias a tua foto.
f/11 a f/32Conhecimento; Loja das marcas de câmeras parceiras, Social e Restaurantes; Clube; Rooftop. Aprofundar, criar, celebrar e fechar o arco.

08 · As ideias que não couberam

O que os 10 minutos cortaram.

🎵 A oitava secreta

Cada andar do museu toca uma nota musical. O Beam sustenta um Dó constante e a visita sobe a escala, do Dó no térreo (f/1) ao Si no photobooth (f/8), a nota que pede para resolver. A oitava resolve no f/11, quando o visitante domina tudo, e o f/16 fecha com um Ré aberto, a vontade de criar lá fora. No elevador da boate, as notas empilham-se a cada andar na subida e apagam-se na descida. Na boate e no rooftop, a escala fica para trás: ali é música de verdade. Quem entende de música percebe; quem não entende, sente.

🎒 Os Beamers e o Kit

Os visitantes são "Beamers". Recebem uma mochila com lanterna (luz e UV), óculos de difração e o Passaporte Beamer, que carimba um ajuste da câmara por andar.

🌙 A boate como motor financeiro

Museu de dia, boate à noite, o prédio rende quase 24h. É o argumento que dá "fome" ao investidor e o meu segundo sonho megalómano (sou DJ). O acesso à boate é feito por elevadores panorâmicos na parte traseira do prédio (com escadas de emergência para o dia a dia do museu), sem que os clientes da boate tenham acesso ao museu.

🧭 A alma, o "não causar dano"

Segurança laser, salvaguardas contra epilepsia, acessibilidade total, energia solar (o teto-diafragma) e IA on-device pela privacidade. Tecnologia de ponta, só quando não causa dano.

🌍 Um formato franqueável

O motor, a marca e os briefs são replicáveis; o conteúdo é sempre local, com artistas de cada país a repetir a fórmula. Não é um museu, é um formato de ensino.

🖼️ Palco para o talento português

Rotação semestral é o palco que Portugal não tem para fotógrafos incríveis e desconhecidos. O museu não só ensina, produz a cena local.

09 · O futuro

Um sonho grande, em fases.

Fase 0Esta apresentação.
Fase 1Um andar-piloto ou pop-up que prova o método.
Fase 2A torre inteira, em Lisboa.

E depois, o mundo, um país de cada vez.

A vida é luz.

Este projeto é a minha forma de a devolver. Obrigado por ler até aqui e por me dar a oportunidade de prender a sua atenção com as ideias dessa cabeça grande aqui.

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